Entrevista com o cartunista Lukas
Como você define o maringaense? Ou não existe definição específica para quem mora em Maringá? Os homens são como são em qualquer lugar?
Maringaenses são legais, desde que você não se aproxime muito deles. Brincadeira. A grande maioria das pessoas é confiável, porém a cidade é muito conservadora e existem muitas sociedades fechadas, as populares “panelinhas”. Baseando-me nos maringaenses com os quais convivo, dá pra fazer uma média: é um povo cordial e solícito. O homem é fruto do meio, da cultura ancestral do local em que nasce. Exemplo: numa estada em Erechim (RS) fomos maltratados por todos (sem exceção). Já em Florianópolis a coisa é diferente.
Se você tiver que falar da sua cidade para alguém que nunca apareceu por aqui, o que diria?
Diria que já foi bem melhor, mas, como todos os centros urbanos evoluem, as coisas vão se complicando em todas as áreas. Já trabalhei em várias cidades do Paraná e sempre recomendei Maringá como um bom o lugar para se morar. Certa vez eu estava ajudando um amigo no bar. Apareceu um senhor e seu filho. Os atendi de forma jovial e brinquei com eles . “Esse povo de Maringá é muito legal, falou para o filho.” A gente veio do Rio e queremos comprar um terreno”, me disse o homem. Compraram, logo depois, construíram a casa e estão curtindo a cidade. Como eles conheço várias pessoas que fizeram isso.
Qual dos seus personagens é mais maringaense?
Acho que nenhum deles têm uma identidade marcante com a cidade. Ocasionalmente um ou outro pode dar uma alisada em algum fato que ocorre em Maringá. Tipo assim, o Vagauzinho participando da Festa da Nações; o Odenilson no vestibular da UEM; o Argemiro no horário eleitoral... Mas, no geral, eles são universais.
Quando você pensa na Maringá da sua infância, o que vem mais forte à memória?
Eu vim de Mandaguari em 69 (eu tinha 7 anos) e nos mudamos para a Vila Esperança. Daí é Inevitável as boas lembranças: A Fazenda Diamante, os furtos de laranja; as pescarias e banhos na “cachoeirinha”, a catação de picão pra dar banho no meu mano recém-nascido, o início da construção da UEM, os pés de café da região; o princípio da Cobal, onde meia dúzia de caminhões ficavam embaixo de um pé de jaca onde hoje está a Vila Olímpica, perto da Colombo. A gente ia lá pegar melancia e laranjas “passadas” pra levar pra casa. Tinha o padeiro, o bucheiro e o verdureiro, que passavam todas as manhãs nas ruas de terra. Até hoje eu sonho com isso. E tinha uma família de negros que morava quase ao nosso lado. Eram em 14 pessoas morando numa casa de 45 metros. Se eu viver 200 mil anos eu nunca vou me esquecer desse pessoal. A Copa de 70 eu assisti na casa deles (a gente não tinha tv). E os campinhos de futebol. E eu com uma toalha de banho correndo na rua Vitória, às quatro da tarde, fazendo que eu era o Nacional Kid. Acabava o seriado que eu via na Telefunken P&B e eu saia correndo no cascalho Sabe, eu acho que daria pra escrever um livro sobre a minha infância em Maringá. Aliás, todos têm a sua história da infância em Maringá. Ou em qualquer lugar do mundo.
Com o passar do tempo ficou mais fácil fazer cartuns por que você ficou mais experiente ou por que o campo ficou mais fértil na política e em outras áreas? Ou nunca foi ou será fácil produzir?
Quando comecei a fazer cartuns eu era menos preocupado com o tema “política”, eu chutava pra todos os lados. Eu tinha 22 anos e aí, com o passar do tempo, eu fui abrindo os olhos pra coisa. “Ó,cara ... Argemiro e Vagauzinho não são tudo. O bicho tá pegando aí pro lado do povão e você tem que escolher o seu lado. Tenta ajudar”. Dá pra dar uma voadora? Não dá, claro, porque o outro lado é mais forte, infinitamente forte. Apesar de há muito eu ter escolhido o “meu lado”. Mas, aprendi, vamos dar uma cutucada. Aprendi com o Jaguar. Cartunista não pode ter lado. Tá Ruim? Vamos pegar o que tá MAIS ruim e sacudir a roseira. Tá Bom? Vamos pegar o que tá MENOS bom e fazer a mesma coisa. Não é pra insurgir, é pra espertar a população. Aí eu fiquei experiente, sim. Mas o lance de produzir depende muito do dia, de seu estado de espírito, do que ocorreu no dia anterior, se a sua cadela tá legal, se o teu estômago tá bem. Felizmente as coisas têm tudo corrido bem e eu crio cartuns até quando vou dormir.
Você é cartunista, mas faz ótimos textos com muito humor, rebeldia e ironia, lançando um olhar crítico sobre a cidade e o mundo. Por que não escrever mais? Ser cartunista já basta?
Eu adoro escrever. Gosto mesmo. Se eu faço ótimos textos eu não sei, acho que são razoáveis. Criei meu blog -www.casadonoca.blogspot.com- (Acessem, por favor!!) justamente por isso. Ali eu publico coisas que talvez não poderia colocar no jornal. Não por serem textos censuráveis, mas porque não são inerentes ao meu estilo de humor publicados na coluna. Foge da linha editorial. Acho que os leitores acostumados aos cartuns não iriam apreciar.
Você é um sujeito tímido. Você recebe bem os elogios ou fica sem jeito?
Sou tímido ao extremo. Mas eu converso bem legal com a turma que me elogia. No início eu fico meio sem jeito, mas, daí, dependendo da pessoa, eu falo um monte. Já ouvi (pura verdade) pessoas me elogiando dentro do ônibus, banca de revista e na rua. E eu ali, quase chorando e com vontade de falar: EU SOU O LUKAS!! CARACA! Mas eu fico quietinho, na boa. Mas com o zoião cheio. Acho melhor assim. Uma coisa espontânea; a gente sabe que as pessoas não estão mentindo e a coisa vem lá do fundão da alma. Certa feita eu tive que desenhar o Vagauzinho prum cara num boteco pra ele acreditar que eu era eu. Ele me elogiou pro pessoal sem saber que eu era eu. Mas esse lance de elogios, dá pra escrever um livrinho. Graças a Deus.
Você já recebeu alguma crítica que tenha te deixado desnorteado a ponto de reavaliar todo o seu trabalho? Ou você nem ligou e acabou fazendo um desenho em "homenagem" a quem te criticou?
Não vou citar o nome, mas é um cara que eu respeito muito e que me deu a maior força quando comecei em 1987. Em 1982, quando eu engatinhava na área do cartum, enviei uma charge para O Diário (com caneta Bic ) que falava sobre a campanha Nordeste Urgente, que visava levar alimentos para o povo da região. Critiquei a rede Globo. Pois bem... um colunista, do mesmo jornal, me depreciou ao extremo. Eu trabalhava numa empresa do governo e achava que estava na bica pra cair no mundo dos cartuns. “Um pretenso cartunista... etc. etc. ... futuro? Duvido!” escreveu ele, terminando o texto. Aquilo acabou comigo. Fiquei uma hora dentro do banheiro, lendo e relendo aquilo.À noite eu nem dormi e fiquei semanas sem desenhar ou criar nada.
Você sempre abre o jogo sobre sua vida profissional. Nesses 20 anos, já enfrentou dificuldades até ter o seu trabalho reconhecido e passar a viver da sua arte. Para os próximos 40 anos, no que está experiência vai te ajudar na profissão?
40 anos? Só pode ser gozação. Daqui 5,6 anos eu já pulei fora. Daqui a 40 anos eu não vou viver da minha arte, eu vou morrer da minha arte. Tô com 46. Faz a conta.
Falando sério... esse tempo todo me ensinou a ter os pés no chão para eventuais turbulências na vida profissional. Eu pretendo me manter sempre humilde, que é o básico no relacionamento humano. Acho que me preparei bem desde criança, mesmo sem saber que seria cartunista quando adulto. Lia muito, sempre li muito. E isso me ajudou bastante. Aí eu acho que esse hábito me ensinou a ter uma visão crítica e satírica do que ocorre mundo. Tudo isso deve me ajudar para os próximos anos.
Fale da importância da sua mulher, a Isa, no apoio que ela dá ao seu trabalho.
A Isa é muito importante no meu trabalho. Ela cria e desenha os cartuns. Sem ela estaríamos ferrados (Risos). A história é longa. Quando a gente namorava (1988) eu caí fora do meu emprego. Fui morar sozinho e passei até fome. Ela sempre me incentivou, mas eu tinha medo de a colocar numa fria. Eu não via futuro na coisa (e a família dela também não, acho). Mas daí já era tarde pra voltar atrás. Pensei em fazer concurso da Copel, da Sanepar, bancos. Enfim, voltar ao serviço público. Mas os cartunzinhos me cutucavam. Mas, daí, deu no que deu. E é bacana que ela não interrompe meu trabalho (?) e sempre dá opiniões sobre o mesmo. E como eu sou um palhaço por natureza, sempre pergunto à ela se tal coisa que eu falei dá um cartum. Geralmente ela não ri e fala que não.
Você é um homem que acredita em Deus. Tem algum trabalho que você tenha dito: "Esse aqui tem a mão Dele." Ou os seus trabalhos são feitos sempre com a supervisão Dele?
Nossa! Em 1987, quando comecei no O Jornal de Maringá, eu estava cuidando da casa de um amigo e fazia uns esboços, sentado à mesa da sala. Aí aconteceu de eu bolar e desenhar um cartum de seis quadros. Foi muito rápido. Quando eu olhei o desenho, dei um pulo da cadeira e com os olhos marejados gritei “Obrigado, Deus!”. Aí eu fui lá no quintal da casa e chorei feito criança. Não sei de onde eu tirei esse “Obrigado Deus!” .Foi muito rápido e bem estranho. E tem outra coisa. Quando fui morar sozinho e estava na pindaíba, passando fome, certa noite peguei um exemplar antigo do O Diário, abri em cima da pranchetinha, comecei a ler e a chorar e soluçar. Lavei o jornal. Acho até que os vizinhos ouviram. E eu falava baixinho : “Ah, Deus. Eu não aguento mais essa vida. Eu faço um trabalho honesto, eu crio, desenho, as pessoas gostam; por que eu tô passando por isso? Me leva, me leva embora porque eu não agüento mais”. No outro dia o pessoal do O Diário me chamou pra ir trabalhar pra eles. Estranho?
O melhor cartun ainda está por vir ou já foi feito e você nem lembra qual foi?
Eu já fiz bastante coisa que me agradou muito. Do Vagauzinho tem bastante, dos empregos em que ele trabalha. Eu sou suspeito pra falar. Tem alguns que faço e não gosto muito e no outro dia algumas pessoas elogiam. Acho que a coisa é bem subjetiva. Mas espero que o melhorzão mesmo, o “the best”, esteja na bica.
Entrevista realizada em 2008 por Antonio Roberto de Paula.
Fotos: Walter Fernandes