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23/11/2010

Livro-Blog: Dispersos Versos Errantes

Leia o livro de poesias de Antonio Roberto de Paula

LIVRO-BLOG DE POESIAS

 

Apresentação

Este livro levou pelo menos duas décadas para ser publicado. Durante todo este tempo fiz um arquivo com cerca de duas centenas de poesias. A cada ano organizava o material e dizia para mim mesmo: desta vez sai. Não saía e jogava fora muita coisa que julgava infantil e que hoje lamento profundamente pelo ato. Então, reciclava alguns textos e incluía outros ao velho arquivo.
As folhas amareladas (isto não é força de expressão, pois realmente dezenas delas ficaram envelhecidas) vêm comigo desde o final da década de 1970. Elas atravessaram o milênio me perguntando se eu teria coragem de mostrá-las. Pois então aí está. Tirei um peso da consciência e hoje posso destruir o arquivo sem qualquer sentimento de culpa.
Muitas pessoas, certamente, vão considerar lúgubre uma boa parte deste material. E vou concordar com elas. No início achava que para escrever poesias atrativas eu tinha que estar com o peito rasgado, o coração sangrando. Entendia que deveria materializar minha rebeldia através de textos que se insurgissem de modo desesperançado contra a Igreja, os poderes constituídos e os líderes em geral. Quanto ao amor, analisava que “amar é sofrer” e por isso dava vazão à desesperança de outra forma. E sem direito a saídas. Percebo um misto de revolta e conformismo, paradoxal e repetitivo em muito dos escritos. Quanto à contradição, explico que se um dia não é igual a outro eu também tenho minhas mutações. Não preciso usar de linearidade. Manter-me centrado diante dos fatos na maioria das vezes é algo que não consigo.
Numa fase mais recente e, portanto, mais experiente elaborei poesias que julgo doces, tranquilas e, efetivamente, dentro do meu mundo. Outrora, em muitas oportunidades, busquei outros personagens para exercitar o meu intrínseco sofrimento. Hoje, apesar desta quase placidez, eu mantenho a linha mestra que está comigo desde que me meti a escrever poesias, contos e crônicas.
Fui obrigado a fazer divisões no livro para que o leitor não venha a considerá-lo sem pé nem cabeça e para que esta humilde obra não fique despersonalizada. Por estes compartimentos espero que o leitor compreenda a minha trajetória no campo da poesia, que espero não se encerrar após esta publicação. Um outro livro poético pode até surgir. Vou precisar de inspiração, autocensura e esmero para guardar todos os rompantes que buscarei tornar reais através da escrita. E paciência para saber a hora certa de ver esses rompantes publicados .Espero também que o próximo não demore tantos anos para ser escrito.
(Antonio Roberto de Paula)





I
SONHOS, MEDOS E INCERTEZA
S


Grande noite

Agora me retraio
A luz me corrompe
As idéias são retalhos
Que diferem a cada dia
Se o meu sonho é pesadelo
Acordo e olho o silêncio
Se a luz está acesa
Procuro a escuridão
Se existem as estrelas
Então eu fecho os olhos
Porque é na noite
Que o calor dos pensamentos
Aquece meus sentidos
Agita meus músculos
E me faz sentir tão forte
E me faz pensar tão lúcido
Nesta errante procura
E quando surge a claridade
Me vejo numa cela
Entre fogos de artifícios
Sendo obrigado a aceitar
Quaisquer regras
Normas e sugestões
Passivo e pacífico
Se tento sair
Sou contido
Pelo brilho dos olhos
Ferozes e acusadores
Pela nobreza dos gestos
Finos e hipócritas
Pela força das palavras
Duras e impostas
A aspereza dos tempos
Afugentou minhas convicções
Dividiu minhas soluções
Criou dúvidas nos meus conceitos
Esta selva me fez fera acuada
Me caçando a todo instante
Alerta nos meus ruídos
Se assim me fizeram
Ou se assim me fiz
Farei meu mandamento
No dia serei sonâmbulo
Na noite acordarei a cidade
Chamando-a para viver



Vivos e belos

Quem nos vê assim tão vivos
Não sabe o que corre além das veias
Quem nos vê assim tão belos
Não sabe o que vai nas cabeças

Quem nos olha não nos vê
Quem nos toca não nos sente
E nas nossas faces sorridentes
O bem e o mal se dão bem

Refletidos diante do espelho
Calamos para não denunciar
Nossos medos e culpas
Ou nossas forças e poderes

Diante desta vida temerosa e atrevida
Vemos passar o nosso filme impróprio
Estampado nas faces e gestos
Destes homens tão vivos e belos


Vivos e belos - (versão 2)
Quem me vê assim tão vivo
Não sabe o que corre além das veias
Dos músculos, órgãos e massas
Quem me vê assim tão belo e plácido
Não sabe o que está por trás deste sorriso torto
Destes olhos míopes e destas palavras soltas
Quem me olha não me vê
Quem me toca não me sente
Nesta face sorridente
O bem e o mal se dão bem
Para bens, para males
O pensamento é um bicho solto
De possibilidades enormes
A vida é um sorriso torto
Visto por olhos disformes
Em mim tudo vive, nada é morto
Tudo pulsa,nada dorme

Anteparos


Faz do trago
O consolo
No cigarro
Sobe com a fumaça
Faz do choro
O encosto
Para não prosseguir

No sono
Desliga martírios
Libera sonhos
Reprimidos
Faz da rua
A esperança de se perder

Na cabeça
Mora a vontade
De fugir
Sem saber pra onde
Onde não será cobrado
Sem rótulo
Sem marca registrada
Fiel a seu comando

Imperando
Esta fantasia
Está tudo certo
Está tudo bem
É mais um meio
De se esconder



Um ponto


Parado diante do mundo
Contando horas
Sons que não ouço
Celas que invento
Este sol tão forte
Este lamento

Tempo quente
Não estou neste presente
Passos que não dou
Era e sou um rosto
Um ponto a mais
Ou menos
Entre tantos

Faço uma história
Versos despedaçados
Vou, voo cego
No desencontro
Me entrego

O sol
Depois
As luzes
Sou só e não me encontro
Sou só um ponto



Saída

A bebida
Antes de descer
Já subiu
À cabeça

Para que se esqueça
O que é imposto
Qualquer gosto
É válido

Tempo árido
Enchendo
Se esvazia
Escapando
Até outro dia


Liberdade dos pássaros

Não me olhe de frente
Não me cumprimente
Não beba comigo
Não de detenha
Mantenha distância

Estou fechado
Sou meu companheiro
Sou meu prisioneiro

Não pergunte meu nome
Não me telefone
Não pergunte da vida
O que penso ou faço

Meu riso é fel
Envolto em ironias
Meu canto é gemido

Fim de tarde
Pássaros voam
Meu voo é sem asas
Com portas fechadas

Estou comigo
Passos trôpegos
Braços caídos
Penso em liberdade
Liberdade dos pássaros


Mais um ou menos um

Esconderijos
São as avenidas
Sou mais um
Ou menos um

Multidão de rostos
Não me perseguem
Não me percebem

Medos retraídos
Passos firmes
Olhos brilhantes
Irradiação da alma

Levo o corpo
Ou ele me leva
Neons me iluminam
Energia canalizada

Vou sem pressa
Voo sem força
Solidão que se foi
E a avenida a percorrer


Relembranças

Um resto de luz
Tinge a vidraça
E timidamente clareia
O minúsculo quarto

O corpo cansado
Cigarro já no filtro
Fumaça se espalhando
Espalhando lembranças

Nos delírios carnais
Ela está presente
Forte e ditadora
Bela e inalcançável

Nervos e músculos
Se contorcem
A mente rabisca
Algo real

É impossível
Para cada razão
Há muitas razões
Para sonhar

Mistura de tédio
E solidão
Claro mistério
Entre quatro paredes

Este filete de luz
Insistindo em alertar
Que lá fora
A vida continua

Agora vem o silêncio
O infinito silêncio
Comprimindo a cabeça
Derramando lágrimas

Gemidos
Tremores
Outro cigarro
Outras lembranças



Freqüência motivada

Os temores nas nossas faces
As vozes abafadas
Saindo das gargantas roucas
Tremendo de medo
Trancamos as portas
E nos escondemos
Nos nossos lençóis
Outra noite invariavelmente
Silenciosa e massacrante

No dia vamos tilintar copos
Enchendo nossa mesa
Quando o milagre do álcool
Completará nossas cabeças
Na conversa revigorante
Giraremos ao nosso redor
Até podermos conhecer
Ou inventar nossa fortaleza

Nossos pavores unidos
E nosso terror sob controle
Hão de nos confortar
Somaremos os tristes sentimentos
Para poder de novo continuar


Áridos tempos

Áridos tempos
Tragicômicas faces
Mortes asfálticas
Jornais de papel
Ou eletrônicos
Borbulhando sangue

Fé ambulante
Vendida pelos salvadores
Estéreis campos
Fechados para produção
Férteis mulheres
Fabricando famintos

Sentimentos abortados
Desencontradas ligações
Mentiras nos púlpitos
Nas tribunas e altares
Manchetes criando o caos
E o homem a dizer amém

Nebulosos e tensos dias
Arrastando as horas
Procissão de males
Na avenida do tédio
Nesses áridos tempos


Só um sonho

Meu sonho sai do quarto
E voa pela cidade
Se detém nas amarguras
Mas logo segue em frente
O voo continua

Meu sonho se entrega aos desejos
Se embriaga nas paisagens
Mas segue em frente
A fantasia continua

Contrastes e uniformidades
Crianças e flores
Velhos e jardins
Casas e lares
Sol e neon
Verdes e celestes
Rubros e nebulosos
Bares e escritórios
Casos fatais
Assuntos banais

Meu sonho se distrai
Segue em frente
E nada mais

 

Para ler o livro-blog na íntegra acesse: http://www.dispersosversoserrantes.blogspot.com/

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