Artesão fala sobre a vida e a arte
Quando lhe perguntam onde nasceu, João Joveniano Cardoso diz: “Vim com o cheiro de Minas, aqui fui brotando e me tornei tronco.” Ele nasceu na pequena Juréia, município de Monte Belo, sul de Minas Gerais, em 1952. No ano seguinte já estava em Maringá.
Em 1955, a família fixou residência na Vila Santa Isabel e de lá não mais saiu. É ali que o artesão Cardoso tem sua oficina de produção de obras de arte feitas com madeira velha, ferro, arame, vidro, cano usado de pvc, terra de formigueiros (porque é flocada e liga melhor à madeira) e tantos outros materiais que para a maioria das pessoas tem o lixo como destino certo.
Cardoso foi da roça e trabalhou em posto de gasolina. Começou a viver da sua arte aos 27 anos. A roça é a sua maior fonte de inspiração. Quase tudo o que produz tem o toque do campo: casas, carroças, charretes, fogões de lenha, utensílios domésticos, passarinhos, violas e violões.
Sua arte é intuitiva. Nunca ninguém lhe ensinou. Diz que 90 por cento do que faz tem a mão de Deus. “Os outros 10 eu me esforço para fazer”, afirma, sério. Era criança quando fez seu primeiro trabalho: um caminhão Alfa Romeo feito de lata de óleo lubrificante. Foi a senha para prosseguir, foi a abertura da porta para entrar num mundo que o tornou um profissional respeitado, que hoje tem três trabalhos na Vila Olímpica, em Maringá, e obras espalhadas em empresas, residências e próprios públicos do País. “É um orgulho ser pioneiro maringaense, minhas obras sendo vistas pelos turistas”, afirma emocionado.
Por meio da Artemar (Associação dos Artesãos de Maringá), as peças de Cardoso são expostas em eventos realizados em vários estados brasileiros. Os trabalhos de Cardoso já estiveram em exposições realizadas em cidades paranaenses, em São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte. Orgulhoso, Cardoso conta que graças à Artemar uma peça sua foi parar numa exposição na França.
Casado, pai de um casal de filhos e avô de Luana, de 3 anos, mora no mesmo quintal em que residem sua mãe, seu irmão e sua irmã. Há mais de 50 anos. Há um bom tempo deixou de fabricar móveis da linha country, em que o couro é utilizado fartamente, e outros objetos em série. Ele trabalha para que cada obra sua seja única.
E voltando ao campo, que é a essência do seu trabalho e onde tudo começou, Cardoso planeja construir um rancho sertanejo em tamanho natural. Recentemente, ele fez um em miniatura com todos os elementos: fogão de lenha, enxada, machado, foice, lenha, vassoura, viola, espingarda, espiga de milho, chapéu de couro, cuia, pilão, bule de café, lampião e muitos outros utensílios. Agora, corre atrás do sonho de pôr um pedacinho do campo dentro do seu quintal.
Por necessidade, por saber que era capaz, porque o coração falou mais alto ou por todos estes motivos, Cardoso passou a fazer objetos a partir de uma estética definida, mas impondo sua marca característica. Uma arte trabalhosa, que exige paciência e rigor simétrico, em que harmonicamente estão ligados vários elementos da natureza. Tudo natural como naturais são Cardoso e sua arte.
Fotos: Walter Fernandes